[Este texto é apenas uma adaptação de "Desculpe o transtorno, preciso falar da Clarice", de Gregório Duvivier]
Conheci ela numa sexta-feira chuvosa. Essa frase pode parecer romântica se você imaginar um primeiro encontro ao som de Soulstripper. Mas o som em questão era tudo, menos calmo estilo 1990. Mas ela ouvia Soulstripper. E eu também. Aquela noite eu não estava para saideiras, mas acabei indo. Ela também. Quieta. Nunca vou esquecer aquela noite!
Enquanto as outras meninas conversavam, ela ficava em seu canto. Quando elas riam, ela ficava vermelha. Envergonhada. Os olhos, sempre imensos, deixavam claro que ela não fazia ideia do que estava fazendo, em mim. Foi paixão à primeira vista. Só pra mim, acho.
Depois de um começo constrangedor, de minha parte, passamos madrugadas conversando ao som de Nirvana e Pearl Jam. De lá, migramos pra Belle & Sebastian e outras tantas novas bandas favoritas.
Começamos a namorar quando ela tinha 18 e eu 19, parecia que a vida começava aí. Vimos algumas séries. Revimos muitas outras. E, deixamos algumas pela metade. Mostrei minhas novas bandas e minha coleção de HQs. Ela fingiu gostar. Vacilamos algumas vezes, um com o outro. Tentamos novamente. Outras tantas vezes. Então, pela primeira vez contei a alguém que escrevia. Ela sorriu com um "também" envergonhado. Não escrevemos nada juntos, mas muito um para o outro. Quase sempre passeávamos dividindo os fones de ouvido. Das dez músicas que mais gosto, sete foi ela que me mostrou. As outras três, claro, falam de nós dois. Aprendi que fonoaudiologia não é apenas uma palavra usada em trocadilhos e que os livros do José de Alencar nem são tão chatos assim. Ela me mostrou várias palavras que o Word tá sublinhado de vermelho, porque o Word não teve a sorte de namorar ela.
Um dia, terminamos. E não foi fácil. Choramos mais que no final de "Hoje eu quero voltar sozinho". Mais que no episódio doze de “Sons of Anarchy”. Até hoje, não tem um lugar que eu vá em que alguém não diga, em algum momento: cadê ela? Parece que, pra sempre, ela vai fazer falta. E vai. Se ao menos a gente tivesse insistido um pouco mais, como no início.
Essa semana, pela 1ª vez depois de tudo aquilo, vi um filme sozinho - não por acaso uma história de amor. Achei que fosse chorar tudo de novo. E o que me deu foi uma felicidade muito profunda de ter vivido um grande amor na vida. O amor do filme até foi bonitinho - mas nele não tinha o seu sorriso bobo. Não falta nada.
- Fernando Rech


