quarta-feira, 29 de julho de 2026

Desculpe o transtorno, preciso falar sobre ela

[Este texto é apenas uma adaptação de "Desculpe o transtorno, preciso falar da Clarice", de Gregório Duvivier]


Conheci ela numa sexta-feira chuvosa. Essa frase pode parecer romântica se você imaginar um primeiro encontro ao som de Soulstripper. Mas o som em questão era tudo, menos calmo estilo 1990. Mas ela ouvia Soulstripper. E eu também. Aquela noite eu não estava para saideiras, mas acabei indo. Ela também. Quieta. Nunca vou esquecer aquela noite!

Enquanto as outras meninas conversavam, ela ficava em seu canto. Quando elas riam, ela ficava vermelha. Envergonhada. Os olhos, sempre imensos, deixavam claro que ela não fazia ideia do que estava fazendo, em mim. Foi paixão à primeira vista. Só pra mim, acho.

Depois de um começo constrangedor, de minha parte, passamos madrugadas conversando ao som de Nirvana e Pearl Jam. De lá, migramos pra Belle & Sebastian e outras tantas novas bandas favoritas.

Começamos a namorar quando ela tinha 18 e eu 19, parecia que a vida começava aí. Vimos algumas séries. Revimos muitas outras. E, deixamos algumas pela metade. Mostrei minhas novas bandas e minha coleção de HQs. Ela fingiu gostar. Vacilamos algumas vezes, um com o outro. Tentamos novamente. Outras tantas vezes. Então, pela primeira vez contei a alguém que escrevia. Ela sorriu com um "também" envergonhado. Não escrevemos nada juntos, mas muito um para o outro. Quase sempre passeávamos dividindo os fones de ouvido. Das dez músicas que mais gosto, sete foi ela que me mostrou. As outras três, claro, falam de nós dois. Aprendi que fonoaudiologia não é apenas uma palavra usada em trocadilhos e que os livros do José de Alencar nem são tão chatos assim. Ela me mostrou várias palavras que o Word tá sublinhado de vermelho, porque o Word não teve a sorte de namorar ela.

Um dia, terminamos. E não foi fácil. Choramos mais que no final de "Hoje eu quero voltar sozinho". Mais que no episódio doze de “Sons of Anarchy”. Até hoje, não tem um lugar que eu vá em que alguém não diga, em algum momento: cadê ela? Parece que, pra sempre, ela vai fazer falta. E vai. Se ao menos a gente tivesse insistido um pouco mais, como no início.

Essa semana, pela 1ª vez depois de tudo aquilo, vi um filme sozinho - não por acaso uma história de amor. Achei que fosse chorar tudo de novo. E o que me deu foi uma felicidade muito profunda de ter vivido um grande amor na vida. O amor do filme até foi bonitinho - mas nele não tinha o seu sorriso bobo. Não falta nada.

- Fernando Rech

sábado, 14 de março de 2026

Se eu fosse eu

Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir. 

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.

“Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.

(Clarice Lispector. A Descoberta do Mundo)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

“Já beijei, abracei, disse que seria eterno, por medo da solidão.
Mas desde que ela chegou, me sinto tão corajoso.”

 - Fernando Rech 

Translator

 

"Ela dizia que nosso romance poderia dar um filme, que seria campeão de bilheteria.
Hoje, alguns roteiros distantes, sinto que aquilo podia ser verdade.
Poderia dar um filme, um bom filme
Mas com certeza, eu não veria."

- Fernando Rech

Translator

 

Você é boa de cama, mas péssima em pedir desculpas.
E não há nada que me foda mais do que isso.”

- Fernando Rech